Nos almoços de domingo na casa da minha avó, eu sempre ficava curioso para ver as fotos antigas da minha família. Como registrar momentos por meio da fotografia era algo muito caro, os registros mais antigos eram escassos, limitando-se a foto-pinturas ou pequenas fotos 3×4. Assim, pude ver imagens preciosas: meus tios, meus bisavós, meu pai ainda criança e minha mãe na mesma fase; os afetos, os momentos anteriores ao meu nascimento. Registrar e contar a história da minha família tornou-se um movimento natural para mim, um processo de estudar uma arqueologia da memória que deixou registros em mim e nas pessoas ao meu redor.
Passei a pintar casamentos com bolos enormes, aniversários fartos dos anos 80 e 90, poses espontâneas, sem filtros, sem alterações; símbolos que se repetiam, símbolos que não eram citados, sincretismos, pessoas que, as imagens, moravam apenas em outras mentes. Naquele instante pausado em matéria, havia uma memória muito vívida das histórias que me formavam. Contudo, ao olhar mais de perto, percebi que essas memórias estavam atravessadas por questões de um Brasil profundo que, na verdade, está bem na superfície: basta olhar para o lado com cuidado.
Assuntos como colorismo, miscigenação, apagamentos históricos, ausência de acesso, dores e traumas fazem parte dessa história inscrita no inconsciente social. Muitas vezes, essas feridas são revestidas de boas memórias, criando uma falsa sensação de superação. Mas, inconscientemente, a dor permanece ali, velada, ainda pulsando.
Em Memórias do Inconsciente, é preciso tanto se afastar para enxergar o todo quanto se aproximar para observar os detalhes que um sistema inteiro buscou apagar. É preciso lembrar e construir pontes para essas narrativas que esperam a nossa chegada.
Jhonyson Nobre
Artista Visual
A exposição Memórias do Inconsciente convida o público a adentrar o universo afetivo e reflexivo do artista, guiando-nos pelas paisagens interiores de sua infância vivida em União dos Palmares, Alagoas. Por meio de suas obras, somos prolongados a um mergulho nas lembranças que transcendem o tempo, revelando fragmentos doces, inquietantes e transformadores de uma vivência marcada pelo ritmo da vida interiorana e pelos ecos das questões sociais que permeiam a existência de um corpo negro no Brasil.
As peças apresentadas resgatam cenas do cotidiano, texturas e narrativas que misturam memórias e sentimentos. A infância retratada aqui não é apenas uma fase: é um território de descobertas, onde questões de pertencimento e ancestralidade emergem como temas centrais. Brincar com a cor, literal e metaforicamente, é uma forma de explorar não apenas as nuances da memória afetiva, mas também as camadas das críticas sociais presentes na negritude, na miscigenação, no apagamento histórico e na dor que, transformada, também pode levar à cura.
A infância do artista é plural: é a liberdade de brincar ao ar livre, o aconchego das histórias contadas à penumbra das calçadas, e as inquietações de uma alma que desde cedo observava as contradições de um mundo marcado pela exclusão e pela resistência. Essas memórias dialogam com a paisagem humana e natural de União dos Palmares, lugar onde história, cultura e lutas pela liberdade se entrelaçam. É também o espaço onde, na consciência do artista, surgiu a descoberta de ser uma pessoa negra, enfrentando o peso das desigualdades enquanto buscava nas raízes familiares e culturais a força para se redefinir.
Por meio de uma linguagem visual compartilhada de subjetividade, o artista nos apresenta um espaço para revisitar nossas próprias memórias e refletir sobre questões de identidade e ancestralidade. Cada obra se transforma em um convite à contemplação, à reconexão com nossas raízes afetivas e à percepção das camadas invisíveis que moldam nossas vivências.
Em Memórias do Inconsciente, a infância é um campo fértil para reflexão sobre pertencimento, ancestralidade e identidade racial. Por meio de mãos que tecem histórias, olhares que narram sentimentos e corações que vibram em comunhão, o artista construiu um espaço de contemplação e de encontro com as raízes afetivas e históricas. É uma celebração da memória como patrimônio imaterial que nos define, nos inspira e nos desafia a confrontar os apagamentos do passado para construir um presente mais justo e pleno. A arte emerge como um poderoso entre o passado e o presente, revelando-se uma linguagem universal de cura e resistência.
Hildênia Oliveira
Curadora e Museóloga
A segunda apresentação da exposição MEMÓRIAS DO INCONSCIENTE, com realização e patrocínio do SESC ALAGOAS, teve sua vernissage na Galeria do SESC Arapiraca, no dia 11 de setembro de 2025 e sua finissage no dia 18 de dezembro de 2025.
uma exposição do artista Jhonyson Nobre e curadoria da museóloga Hildenia Oliveira.
expografia e coordenação de montagem de Daniel Cavalcante
projeto gráfico de Bruna de Oliveira
assistência gráfica de Rayrã Chaves
montagem e cenotécnica de Gil Nobre
mídias digitais de Ícaro Nobre
assessoria de imprensa de Anna Sales
Recursos de acessibilidade de Pra Ver e Ouvir
educativo de Xiluva
direção artística do SESC Arapiraca por Helena Andrade
direção artística do SESC Alagoas por Fabiana Guimarães
com apoio
Museus Theo Brandão de Antropologia e Folclore
Universidade Federal de Alagoas
Instituto Igoarias
Agradecimentos
Gil Nobre
Luciene Nobre
Mickaelly Nobre
Elza Nobre
Lincoln Matheus
Juca Nobre
Albertina Nunes
Manoel Nunes
Solange Nunes
Lenice Nunes
Mila Nunes
Jamily Nobre
Evilly Tainá
Alicia Dias
Junior Almeida
Diana Missias
Geovane de Barros
Selma
Severo Batista
Joselia do Nascimento
Igor Arias
Isaias Maximiano


CREDITOS
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